Contextualização

Contextualização da obra “Fédon”

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A História é testemunha da Grécia Antiga como sendo o país da matemática, da geometria, das artes e, antes de tudo, da filosofia ocidental e da democracia. No entanto, é o ramo filosófico da história grega que interessa abordar para o estudo da obra “Fédon”, de Platão.

Os filósofos Pré-Socráticos, ente os quais se encontram Tales, Pitágoras e Filolau, são aqueles que antecederam Sócrates, mas esta divisão deve-se à diferença de objetos filosóficos dos pensadores, e não à sequência cronológica (alguns dos Pré-Socráticos foram contemporâneos de Sócrates ou mesmo posteriores a este). Estes filósofos refletiam sobre o problema cosmológico, sobre a essência e o princípio (arché) das coisas. Embora influenciado por Parménides, “um dos Pré-Socráticos”, Sócrates dedicou-se mais ao pensamento ético-político…

No século V a.C., um grupo de sábios, os chamados sofistas, apareceu. Eram mestres da arte da retórica e da persuasão e, por isso, ensinavam-nas a futuros políticos e oradores. Estavam convictos de que qualquer argumento era refutável e que a força e a convicção do mesmo residiam no que parecesse verdadeiro ao público em questão e não necessariamente no verdadeiro. Górgias, Protágoras e Hípias são alguns dos sofistas mais conhecidos.

Estas teses eram largamente reprovadas e satirizadas por filósofos, incluindo Sócrates: para estes últimos em vez de transmitir aquilo que se julga saber, deve-se procurar e explorar aquilo que não se sabe. Era por causa desta postura irónica dos filósofos face aos sofistas que estes desprezavam aqueles.

Cada pólis tinha as suas leis e os seus deuses. Era o cumprimento das primeiras e a veneração dos segundos que definia um ateniense. E eram estes “alicerces” que alguns filósofos destabilizavam, afirmando que muitas das leis serviam os interesses dos governadores em vez da justiça e que se deviam guiar pela própria razão e não pela vontade ou pelas ações dos deuses, deuses estes que eram frequentemente representados como entidades adúlteras e traiçoeiras entre si e para os homens.

Estes ensinamentos filosóficos reuniam hostilidade e ódio de muitos cidadãos e, principalmente, por parte do governo. Isto porque, para além de “corromperem a juventude” e de promoverem a adoração de outros deuses que não os da cidade (foram estas as acusações atiradas a Sócrates no seu julgamento), vivia-se também em tempos de guerra.

Atenas estava em conflito com Esparta (Guerra do Peloponeso, 431 a.C. – 404 a.C.) e as pessoas queriam sarar os traumas e as feridas bélicas, e não deitar sal nelas questionando os deuses e o governo.
Quando Atenas é derrotada os sintomas da sua decadência não são atenuados pela sucessão de regimes efémeros: à oligarquia do ano 404 a.C., segue-se a restauração da democracia; e é nesta democracia que Sócrates é condenado e executado.

Não é sem razão que o nome de Sócrates é tantas vezes mencionado: Platão foi seu discípulo durante os últimos anos de vida do mestre e o julgamento deste foi decisivo para a configuração do pensamento platónico. Nas suas palavras, a execução de Sócrates, que era a seu ver o mais justo e sábio dos homens, foi o maior crime e a maior injustiça cometidos pela sua cidade. Platão escrevia:

“Portanto, os males não cessarão para os humanos antes que a raça dos puros e autênticos filósofos chegue ao poder ou antes que os chefes das cidades, por uma divina graça, se ponham a filosofar verdadeiramente.” (1)

Sem dúvida que com a fundação da Academia Platão contribuía para o aumento da “raça dos puros e autênticos filósofos”, que esperava um dia chegarem ao poder, já que era absurdamente improvável que os chefes atuais das cidades se pusessem a filosofar verdadeiramente.

Alina Chervinska

(1) Platão, Cartas, p.50, Lisboa, Editorial Estampa, 1989.

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