O Fédon é uma obra da maturidade platónica, escrita no século IV a.C., onde se encontra exposta a tese sobre a natureza imortal da alma humana. Escrevendo sob a forma de diálogo, Platão faz de Sócrates, seu mestre, o personagem principal da obra e através dele expressa o seu próprio pensamento.

No Fédon, o tema da morte está duplamente presente, quer como realidade física e concreta, uma vez que tudo se passa no dia em que a sentença de Socrates vai ser executada, quer como tema de reflexão teórica a pretexto da explicação sobre o estado de espírito do filósofo nos últimos momentos da sua vida. A morte é entendida como separação da alma e do corpo, sendo o destino das almas infinitamente mais compensador para os bons do que para os maus. E assim se justifica a serenidade de Sócrates, o filósofo, o virtuoso, perante a morte.

O filósofo é aquele que procura distanciar-se em vida de tudo o que o prende ao mundo sensível, reduzir ao indispensável o contacto e o comércio com o corpo. Este constitui um obstáculo epistemológico e ético, pois dificulta à alma a apreensaão da verdadeira realidade e a prática da virtude. Além da necessidade de subsistência, o corpo expõe- nos a doenças, paixões, desejos, temores, futilidades e fantasias de toda a ordem; ele fomenta as guerras, as lutas, as discórdias. Eis-nos perante um dualismo antropológico: a vida humana é resultado da união, acidental, da alma e do corpo e só quando se libertar do corpo poderá o homem ascender a um mundo melhor. O corpo é um cárcere que prende a alma a um mundo de aparências, degradado e num constante devir que perturba a segurança humana. O corpo é o elemento sensível, visível, composto e, por conseguinte, sujeito ao processo de decomposição; a alma é o elemento inteligível, invisível, simples e isenta do processo de decomposição, ou seja, é de natureza imortal. Platão apresenta-nos no Fédon o seu ideal de Homem, sábio e virtuoso no mais grau e fatalmente destituído do medo da morte. A atitude filosófica dignifica o homem e Sócrates é o seu modelo. A Filosofia define-se como catarse e a vida terrena como uma propedêutica para atingir a felicidade, finalidade última do homem.

No seguimento do intelectualismo moral socrático, Platão estabelece uma relação de dependência entre sabedoria e virtude: aquele que conhece o Bem age bem, sendo os actos menos virtuosos praticados por ignorância e não por causa de uma qualquer natureza maléfica do indivíduo. A felicidade é dada ao filósofo-virtuoso como recompensa por uma vida dedicada à preparação da morte. A filosofia apresenta-se-nos como “um treino de morrer e de estar morto”, um esforço constante em limitar o comércio com o corpo, permitindo purificar a alma e reencontrar a sua verdadeira natureza. Por isso, a alma do filósofo merece a felicidade e esse será o seu destino.

 

Ao longo da obra a razão mostra-nos que a morte não é o fim, mas o princípio da verdadeira existência; no fim, através de um mito, Platão afirma a existência de uma justiça superior que julga as almas, depois de estas entrarem no Hades. Nesta revelação funda-se uma ética do Dever, da Justiça e do Bem Supremo como finalidade da existência humana. A ética platónica é racionalista, espiritualista e ascética. A prática da virtude é necessariamente acompanhada de razão e só o elemento espiritual humano o poderá fazer. As virtudes do filósofo – coragem, temperança e justiça – resultam de um esforço racional de purificação, não são consequência da vontade de prestígio social ou político. A virtude implica conhecimento e é a contemplação dos valores espirituais que permite à alma a sua prática. A ascenção da alma ao mundo das formas puras é simultaneamente uma ascenção gnosiológica e uma formação ética.

A filosofia representa para Platão o nível mais elevado de conhecimento, uma vez que, só ela possibilita a contemplação das Ideias e, particularmente, da Ideia do Bem. As Ideias são a realidade e o objecto da verdadeira sabedoria. Como preparação para a “noesis” antecede-lhe a “dianoia”, ou seja, as ciências matemáticas. Ambas se encontram ao nível da “epistéme”, distanciando-se, por conseguinte, da “doxa”. O homem comum está preso aos sentidos, vive um realismo ingénuo, acredita que o que vê é a realidade. Está como que voltado para o fundo de uma caverna a ver passar reflexos de uma realidade que se encontra nas suas costas, convencido que as sombras são os objectos! A ciência acorda-nos deste sonho e abre-nos as portas para o mundo da universalidade, da necessidade e da permanência. É neste mundo que a alma habitava antes de se unir ao corpo e será através dos sentidos que ela poderá despertar em si mesma o conhecimento que dele teve e que nela se encontra latente. A teoria da reminiscência, segundo a qual “aprender não é senão um recordar”, constitui o fundamento do 2o argumento em defesa da tese da imortalidade da alma. A reminiscência mostra que a alma existe antes e independentemente de um corpo e que mantem as suas faculdades e entendimento em si e por si; por outro lado, ela implica uma relação de identidade entre as coisas sensíveis e as Ideias, sendo estas em tudo mais perfeitas do que aquelas. A teoria da reminiscência conduz à teoria da participação, a qual, no Fédon, é entendida como presença da Ideia nas coisas sensíveis.

O grau de igualdade que existe entre duas pedras iguais só pode ser determinado se possuirmos, anteriormente, o conhecimento do Igual em si. A Igualdade não é uma qualidade sensível dos objectos, mas são estes que provocam em nós a reminiscência de tal Ideia. As Ideias, de Igualdade, de Justiça, de Bem, de Belo, entre outras, são seres inteligíveis que possuem um estatuto gnosiológico e ontológico. Elas existem e distinguem-se pela sua unidade, permanência e imutabilidade, pelo que se constituem como objecto do verdadeiro conhecimento. Conhecer a realidade é ascender à contemplação das Ideias…

 

Encontramos em Platão as origens do racionalismo dogmático que fortemente influenciou o pensamento ocidental. Só através da razão, em si e por si, poderemos ascender ao conhecimento da verdadeira realidade, contemplar o Mundo das Ideias ou Formas Puras. Toda a filosofia platónica se fundamenta num dualismo cosmológico e numa ruptura entre o plano sensível, sujeito ao devir, e o inteligível, eterno e imutável. É no mundo metafísico que encontramos a razão de ser ou o fundamento do que existe e acontece no mundo sensível. O Mundo das Ideias tem um estatuto ontológico, existe independentemente do nosso mundo mas é a sua causa e o seu modelo.

A relação que existe entre os dois mundos, entre seres inteligíveis e seres sensíveis é de participação. Tomando as Ideias como hipótese, a causalidade revela-se como participação. Se de facto há o Belo e para além do Belo existem coisas belas, “a única e exclusiva razão de cada uma ser bela é o facto de participarem desse mesmo Belo”. Todas as outras causas caducam perante esta concepção de que cada coisa é o que é graças à sua participação nas Ideias. Em síntese podemos afirmar que tudo o que é X, para além da Ideia de X, é-o apenas por participação nessa Ideia; o que significa, por outras palavras, que é a participação na Idea de X que constitui a sua razão de ser X.

No primeiro argumento afirma-se que “os vivos procedem dos mortos, assim como os mortos procedem dos vivos”, o que pressupõe a existência de um elemento que permanece “algures” neste ciclo; esse “algures” é o Mundo das Ideias, o qual a alma habita antes de se unir ao corpo e dar origem a uma nova vida. No segundo argumento afirma-se a pré-existência da alma em relação ao corpo e que a alma é então dotada das suas faculdades e entendimento, o que lhe possibilita conhecer esse Mundo de Ideias que habita. No terceiro argumento infere-se a imortalidade da alma pela sua congenialidade para com as Ideias, ou seja, é de natureza simples, isenta do processo de decomposição, sempre igual a si mesma e possui as mesmas propriedades dos objectos que contempla: as Ideias. No quarto argumento a imortalidade da alma infere-se a partir da sua essência, porque as essências se revelam sempre idênticas a si mesmas, não admitindo nunca o seu contrário. Enquanto as coisas contrárias devêm a partir das suas contrárias, os próprios contrários “em si” ou “em nós” não podem tornar-se nunca o seu contrário; perante a aproximação deste “seguramente se afasta ou perece”. Se a alma é princípio de vida, pois é ela que “anima” ou “dá vida” ao corpo, então ela participa por essência na vida. Sendo a morte o contrário da vida, ao ser por essência vida a alma é por essência não-morte, imortal. A alma não pode acolher em si o contrário daquilo que comporta necessariamente: a morte. Quando esta se aproxima, a alma “bate em retirada”, liberta-se do corpo e é esse o seu destino.

Quando chegamos ao fim da obra, apercebemo-nos que, ainda que de forma não sistematizada, a Teoria das Ideias constitui o fundamento de todos os argumentos e de toda a filosofia platónica. É certo que Platão coloca as Ideias como hipótese, mas se as questionarmos enquanto tal, pomos em causa todo o seu pensamento.

Inês Muller

Pin It on Pinterest

Share This