Argumento dos Contrários em Si

Depois dos argumentos apresentados, fez-se silêncio; Símias e Cebes trocavam em voz baixa algumas palavras. Sócrates convidou-os então a apresentarem as suas objeções, ele próprio diz: «alguém que se disponha a aprofundar os nossos argumentos encontrará ainda matéria bastante para dúvidas e objeções» (84 c).

Símias apresenta então a sua tese da «alma harmonia»: se a alma fosse uma espécie de harmonia desapareceria quando o corpo morresse, tal como desaparece a harmonia musical quando uma lira se estraga. Cebes afirma que pode acontecer que a alma sobreviva à morte dum ou de vários corpos mas acabe também por morrer um dia, assim, mesmo que se prove que a alma tivesse vivido antes do corpo e se prove que continue a viver depois, quando este morre, isso não prova que seja imortal.

A teoria de Símias contradiz a teoria da reminiscência. Segundo esta, a alma tem de existir antes de se ligar a um corpo. Ora, se a alma fosse uma harmonia deveria resultar «de elementos corporais em tensão» (92 a), tal como a harmonia musical deriva da tensão das cordas duma lira, logo não poderia existir antes de se ligar a um corpo.

A teoria de Cebes é rebatida da seguinte maneira: A alma é a força vital que dá vida a um corpo. Se a alma é vida não poderá aceitar o seu oposto a morte, tal como o par não aceita ser impar, logo a alma é imortal. A ideia que está na base desta afirmação é que aquilo que é princípio de vida (é da ligação da alma ao corpo que nasce a vida) não pode estar submetido à morte.

Devemos portanto cuidar da alma e prepará-la para uma vida futura e ter esperança de encontrar aí aquilo que procurámos (se formos verdadeiros filósofos), mas nunca encontrámos plenamente, a sabedoria. É porque está animado por essa esperança que Sócrates está sereno no momento da morte. Esta esperança é um risco, ainda que um belo risco. A intenção de Platão é mostrar que este risco vale a pena. Apesar de não haver razões que provem duma forma plena que o destino que aguarda o filósofo é bom, há no entanto razões suficientes para arriscar.

Que devemos dizer? Devemos dizer que a filosofia de Platão falha porque não prova com exactidão que esse é o destino do filósofo? Pensamos que não, porque não é isso que Platão quer demonstrar. Pensamos que Platão demonstrou aquilo que queria demonstrar: que não é absurdo ter esperança, que tem sentido arriscar. Suponhamos que Platão provava que o filósofo que levasse uma vida de afastamento relativamente ao corpo, na busca incessante da verdade, completava, depois da morte, o que iniciou em vida. Suponhamos que Platão provava que não havia qualquer risco neste tipo de vida, que não se está a lutar por nada de impossível, nem simplesmente provável, mas por algo que se realizará necessariamente. Que valor teria então a vida?

Lucas Chaves

É no quarto e último argumento que Sócrates finaliza a sua argumentação em favor da imortalidade da alma.

Neste argumento Sócrates chega a conclusão de que a Teoria da Reminiscência e a Tese da Alma-Harmonia são contraditórias uma vez que a Teoria da Reminiscência obriga a preexistência da alma em relação ao corpo enquanto que a tese da Alma-Harmonia afirma que a alma é resultado da tensão entre os compostos que constituem o corpo.

Sócrates vai estabelecer a relação entre os argumentos anteriores através da Teoria das Ideias e das Formas. É através da investigação das causas “de cada coisa, a razão por que cada uma surge, por que cada uma perece ou existe” que este argumento se constitui.

Refugiando-se nas Ideias, sendo que elas são as únicas realidades e verdadeiras causas de todos os seres, foi desenvolver a busca pela verdade. Chegou a conclusão de que as Ideias existem em si e por si mesmas e que é por elas que outras existem, não aceitando que em cada uma exista algo que não seja sua própria essência.

Por exemplo, sendo uma Ideia a grandeza, ela tem como essência ser grande, isso deve-se ao facto de ser maior. Por isso não aceitará que tenha como um essência ser pequena porque a partir do o momento em que a grandeza conter em si algo que lhe é oposto, como a pequenez ela deixa de ser a ideia de grandeza. Perante esta situação existem duas soluções: ou bate em retirada quando a pequenez se aproxima ou fica destruída.

Sendo assim nenhum oposto em si jamais irá aceitar ser algo que lhe opõe. Se a essência de uma ideia se altera então esta ideia deixa de ser a ideia inicial.

Como tal Sócrates conclui que a alma tem como essência ser vida e jamais aceitará ser o seu oposto. Sendo que o oposto da sua essência, que é vida, é a morte, a alma nunca aceitará a morte, ou seja, a alma é imortal.

 

Madalena Sequeira

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