O terceiro argumento é a teoria da congenialidade entre a alma e as ideias (ou a semelhança entre a alma e as ideias). Este argumento procura responder a quatro questões pertinentes que envolvem o conceito de «dissipação» da alma.

As duas primeiras são colocadas num plano geral:

1.ª Que tipo de ente será propenso à dissipação?

2.ª A propósito de que coisas convirá temer tal estado de dissipação?

Pelo contrário as últimas duas questões são colocadas num plano mais particular:

3.ª Cairá a alma na categoria dos entes definidos na primeira resposta?

4.ª Devemos (de acordo com a segunda resposta) temer pela nossa alma quanto à sua possível dissipação?

Para responder às primeiras duas questões, Sócrates diferencia os seres que podem e que não se podem dissipar, são eles os seres compostos caracterizados por estarem sempre em mudança e nunca permanecem idênticos e os seres simples caracterizados por se manterem constantes e idênticos a si mesmos.

Assim, Sócrates vai associar os seres compostas às coisas visíveis, ou seja, ao sensível que se encontra em constante devir (mudança), e os seres simples às coisas invisíveis que, por não se alterarem, são puras e intemporais, não sendo percetíveis aos nossos sentidos pois só através do pensamento é que conseguimos aceder-lhes.

Contudo as premissas para a solução da questão fundamental (imortalidade da alma) são demonstradas claramente: enquanto a alma e o corpo representam igualmente dois tipos de realidades distintas e a sua diferença reconduz se precisamente à que separa a espécie invisível (ser simples) da espécie visível (ser composto).

Tal “recondução” referida ocorre diretamente dos desenvolvimentos anteriores consistindo na incorporação da alma e do corpo respetivamente no ser simples e no ser composto.

Estabelece-se, assim, a dupla assimilação da alma e do corpo : «é o que é divino, imortal e inteligível, ao que possui uma só forma e se mantém constante e igual em si mesmo, que a alma mais se assemelha»; pelo contrário, «ao que é humano, mortal e não inteligível, ao que possui múltiplas formas, sem jamais se manter igual a si mesmo, que mais se assemelha o corpo».

Contudo este argumento não prova a imortalidade da alma no seu todo, quanto muito a imortalidade da alma do filósofo ou da alma filosófica porque nem a simplicidade da alma foi demonstrada nem é demonstrada a relação de semelhança que tem com as ideias.

Clara Martins

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