Argumento da Reminiscência

Theaetetus_stephanus_page142O segundo argumento da teoria da imortalidade da alma é o da Reminiscência. Este argumento começa por enunciar quatro premissas:

Primeira – para recordar algo é necessário ter já tido antes conhecimento dele (“aprender não é senão recordar”).

Segunda – o saber é um recordar, se ao ter a percepção de algo, representar não apenas esse algo, mas outra coisa diferente que se lhe associa.

Terceira – o ponto de partida de uma recordação pode ser tanto um semelhante como um dissemelhante.

Quarta – no caso do semelhante, deve haver uma diferença e uma falta no objecto para que se dê a recordação.

Destas premissas decorre a demonstração, constituída por três momentos: nova intervenção da teoria das ideias, o estabelecimento do saber como reminiscência e a derivação da imortalidade como suposto da reminiscência.

A presente introdução da teoria das ideias apresenta as ideias imediatamente em relação com as coisas particulares e justamente na sua diferença relativamente a elas. A ideia de Igual servirá como exemplo visto que obedece desde já a este paradigma.

Ora, sabemos decerto o que é o igual, mas donde tirámos esse conhecimento?

De acordo com a segunda premissa o processo pelo qual, a partir das coisas iguais, tomamos consciência do Igual em si mesmo é necessariamente uma reminiscência. Todavia, segundo a primeira premissa, é necessário que também neste caso a reminiscência do igual seja justificada a partir do anterior conhecimento desse mesmo igual. É necessário que antes do momento em que pela primeira vez apreciamos coisas iguais como iguais, já tenhamos tido conhecimento dele.

É pelos sentidos que apreciamos as coisas iguais enquanto iguais, visto que usamos os sentidos desde que nascemos é necessário que conhecimento do igual anteceda ao nascimento. O que se disse é evidentemente válido não só para o igual mas para todas as ideias, nesta medida é uma evidência de que “antes de nascermos, estávamos já na posse do conhecimento de todas estas realidades”.

Assim, é simultaneamente demonstrada a natureza do conhecimento como reminiscência e o carácter imortal da alma, pelo menos, de preceder cada uma das suas incarnações corpóreas. Podemos considerar, assim, que atingimos um tal conhecimento antes de nascer, mas que, tendo-o perdido no momento do nascimento, estamos agora confinados a recordá-lo. Esta solução é a da reminiscência.

Ora,  esta teoria é a única solução consistente com a imortalidade da alma, porque é a única que exige, como seu suposto, a precedência da alma em relação à incarnação corpórea. Contudo, este argumento não prova a subsistência da alma após a separação desta e do corpo, mas somente a sua existência independentemente deste.

Sócrates conclui dizendo que “antes de incarnar numa forma humana, as nossas almas existiam já, independentemente de um corpo e eram dotadas de entendimento”.

Marta Martins

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