Podemos dizer que o filósofo Arthur Schopenhauer, nascido em Danzig (em 1788) e falecido em Frankfurt (em 1860), marcou a História da Filosofia no Ocidente, principalmente por ter valorizado um elemento novo nas discussões filosóficas: a noção de corpo.

Nos tempos em que Schopenhauer viveu, as filosofias de Hegel e de Schelling predominavam e apoiavam-se somente no aspecto racional do homem. Para Schopenhauer, em vez da razão definir o homem e “decifrar o enigma do mundo”, são o corpo e o sentimento (o que ele chama de vontade) que permitem alcançar e enunciar o sentido das coisas. A vontade é o que há de mais essencial no mundo: ela manifesta-se em toda a natureza e nos corpos animais, independentemente de serem eles possuidores ou não da faculdade de razão. Todos os corpos do mundo fenoménico são considerados, nesta filosofia, como a concretização de um mesmo querer que nunca cessa. A objectivação da vontade não escolhe se vai manifestar-se no homem mais inteligente ou numa pedra. Deste modo, a diferença entre os seres humanos e os demais animais é quase insignificante, visto que tanto o homem como o animal têm por base uma mesma essência metafísica, a vontade de vida.

Além disso, o que faz com que a atenção dada por Schopenhauer ao corpo seja determinante é o papel indispensável que este elemento tem na teoria do conhecimento do pensador. Ele acredita que a base da formação do nosso conhecimento racional não é racional, já que começa com as sensações corporais. O que o filósofo chama de representações empíricas só existem porque, anteriormente, o corpo recebeu informações e sensações dos objetos, criando assim representações. Neste contexto, é importante ter em conta que o entendimento também faz parte do corpo do sujeito, já que é entendido como um órgão físico. Assim, em vez da racionalidade, definir sozinha o conhecimento, torna-se dependente dos dados corporais e só a partir desses dados, é que a razão pode fazer algo.

Segundo Schopenhauer, o corpo é a representação que constitui para o sujeito o ponto de partida para o conhecimento. O corpo é objeto imediato na medida em que é um mero conjunto de sensações recebidas pelos sentidos e estes advêm da ação de outros corpos sobre si. Nesse primeiro aspecto, o corpo designa propriamente a vontade, porque cada ato de vontade corresponde a um movimento corporal e desta forma ele passa a ser para além de uma condicionante do conhecer, uma chave para se descobrir o “enigma do mundo”. Contudo, esse mesmo corpo pode fornecer informações dele mesmo. Por exemplo, em que os olhos vêem partes do corpo e com as mãos pode tocar nele. Assim é que o corpo passa a ser, tal como os outros, objeto mediato, portanto, conhecido como representação na intuição do entendimento. Para que esse conhecimento ocorra é necessária, através do uso da lei da causalidade, a ação de uma de suas partes sobre as outras.

O autor faz uma ressalva quando toma o corpo como objeto imediato. O corpo não se dá propriamente como objeto, por um motivo claro: Schopenhauer não considera-o do ponto de vista do mundo como uma representação, o que justificava designá-lo como objeto. Para além disso, passa a considerá-lo também a partir do mundo como uma vontade. De facto, a partir do segundo livro de “O Mundo como Vontade e como Representação”, as ações do corpo e os atos de vontade passam a identificar-se e posteriormente, o corpo é também visto como um objeto da Vontade (Objektität des Willens). Assim, é que o objeto imediato passa a ser visto por si mesmo e mais ainda, esse outro modo de conhecimento passa a distinguir-se do que é comum à representação. Com isso, a certa altura já não se tem apenas “sensações dos sentidos”, ou seja, um mero meio para algo, mas a realidade externa. Esse mesmo meio passa a definir-se como objeto e a sua figura corporal começa a ser desenhada, estando ela dotada de especificidades.

Para além do corpo revelar a Vontade e ser objeto imediato, torna-se mais um objeto passível de conhecimento. É então que seus próprios membros podem-se conhecer; ver uma mão ou um tocar nos dedos e ambos, situados espacialmente, tornam-se objetos mediatos, muito embora sejam eles também objetos imediatos (na medida em que a mão ajuda na construção de outros objetos e o olho observa). Vê-se, pois, o motivo pelo qual, caso não houvesse entendimento – um membro corporal determinante para a construção do conhecimento – não haveria também um mundo externo. Uma sensação por si mesma seria uma “coisa pobre”, uma mera afecção dos sentidos. Enquanto tal, essas sensações não poderiam conter nada de objetivo, portanto, nada que se assemelhasse a uma intuição.

Desse modo, a realidade exterior a cada sujeito do conhecimento é um produto do entendimento, esse artesão que se serve das formas do princípio de razão e dos dados possibilitados pelo corpo, oferece as representações intuitivas que se entrelaçam, formando a exterioridade. Por isso, o mundo efetivo não é dependente da razão. Ao contrário, em vez de a razão oferecer algo, é o entendimento que, com as suas intuições empíricas possibilitadas pelo corpo, apresenta-se como a base das construções racionais e do conhecimento humano.

Ora, se a tarefa por excelência da filosofia é aproximar-se de conceitos e com eles dar sentido ao mundo, Schopenhauer acolhe e destaca o que é, em essência, o inverso da abstração conceitual. Com isso, o perigo iminente da dispersão abstraccionista diminui, já que os conceitos têm uma referência em concreto na realidade exterior; o pensamento provém daquilo que não é pensado e não toma este como algo que não mereça atenção. Eis, pois, um elogio significativo ao corpo no interior da filosofia e uma filosofia fincada no corpo.

Duarte Oliveira Machado

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