Lysippos . Sileno segurando o menino Dionysos em seus braçosA Verdade de Sileno

Sileno era, na mitologia grega, tutor e companheiro leal de Dioniso (deus do vinho e da embriaguez). Era um velho que, para além de ser feio e estar quase sempre embriagado ao ponto de ter que ser amparado pelo seu cortejo de sátiros e transportado num burro, dizia-se possuir conhecimentos especiais e até proféticos.

Nietzsche escreve: “Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu-o na floresta, durante longo tempo, sem conseguir apanhá-lo. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: – Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, ser nada. E o melhor em segundo lugar, para ti, é morrer rápido”. (Nietzsche, A Origem da Tragédia)

As palavras proferidas pelo velho Sileno constatam toda a insignificância e efemeridade da nossa existência como seres. Frases como “Não somos mais do que pó no universo”, “Todos morreremos um dia” têm um significado semelhante. Onde fomos buscar a ideia presunçosa de que a nossa presença no mundo tem um fim e um significado? Parece que o ser humano encontra conforto na ideia da própria importância. No entanto, ao contrário do positivismo que observamos na cultura moderna, este conhecimento era a autêntica sabedoria popular na Grécia antiga.

São várias as ideias do jovem Nietzsche que têm subjacentes a verdade de Sileno:

Nietzsche facilmente a relaciona com a sua conceção dionisíaca da vida. “Dionisíaca” porque para além de ser o deus das festas e do vinho, Dioniso é também o deus de tudo o que seja contraditório – logo, inclusive da vida e de tudo. Sob esta perspetiva, a nossa vida é um caos, uma pluralidade de forças em constante devir; e se pensamos que somos seres individuais e separados, enganamo-nos: por trás de toda a multiplicidade de fenómenos no mundo está uma realidade una. E nós, juntamente com tudo o que vemos, somos meras manifestações, no espaço e no tempo, do sem-fim de forças que se encontram sob a superfície da ilusão que percecionamos todos os dias.

A sabedoria popular (e silénica) dos gregos antigos reafirma-se ainda mais através de outro aspeto da sua vida: em homenagem a Dioniso e aos sátiros – seus acompanhantes no infindável festejo da vida, pelos bosques – nas aldeias e nas cidades da Grécia antiga celebravam-se ritos, com danças acompanhadas de cantos chamados ditirambos. Os participantes bebiam, dançavam e cantavam até alcançarem o êxtase. O êxtase resultante de semelhante excitação dos instintos representa uma espécie de mergulho na realidade dionisíaca do Uno. Neste estado o indivíduo não se percebe como algo separado da natureza ou dos outros. Nem há uma barreira entre a alma e o corpo, a razão e os instintos, a consciência e a inconsciência. O êxtase dionisíaco rasga o véu que separa o individualismo do mundo ilusório (a que chamamos real no nosso dia-a-dia) do fluir caótico e constante da “substância” da realidade. Este estado de consciência coletiva e una, porém, passa e o indivíduo tem que regressar ao estado “habitual”.

No entanto, e ainda sobre o a experiência do êxtase, Nietzsche diz que, após se ter alienado no mundo da realidade dionisíaca, o sujeito não volta a ser o mesmo. Ele toma a consciência de que a sua perceção das coisas tem limites e que não corresponde à verdade. A sensação da própria cegueira e insignificância agrava-se e a verdade esmagadora de Sileno, que foi proferida pelo mesmo entre risos!, é mais uma vez apoiada.

Não obstante todo o desespero e terror que a consciência desta verdade nos possa suscitar, o ser humano pode aprender a rir-se perante tal pessimismo, pois este é um pessimismo vital, como Nietzsche nos virá a demonstrar, e que serve de base a toda a filosofia nietzschiana e à sua revolta contra a ordem e os valores da sociedade sua (e nossa) comtemporânea.

Ao longo das sua obras ele ensina-nos a rir ingenuamente como o faz Zaratustra e livremente como o faz o super-homem, ao mesmo tempo que se aceita toda a tragédia da condição humana.

Alina Chervinska

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