Transição do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico

Não é possível conceber nada que sem restrições possa ser considerada boa, a não ser a boa vontade. Digamos assim que, só a boa vontade fundamenta o valor moral de uma ação. Uma boa vontade é definida como uma vontade pura, sem qualquer determinação ou influência sensível, é o único regulador do bom uso dos talentos do espírito -coragem, faculdade de julgar, decisão (…) – que apesar de “dons da natureza” podem tornar-se extremamente prejudiciais, se não se servirem da boa vontade (a forma como se usam estes dons define o carácter). Com isto conseguimos perceber que uma qualquer ação só será moral se valer por si mesma e não pelo efeito que se atinge através dela, e para isto deve ser efeito de uma boa vontade tomada como uma “norma de conduta”, a partir de um princípio racional, incondicional, e portanto a priori.

O poder, a riqueza, a honra, a própria saúde e o completo bem-estar, em resumo o que se chama felicidade, geram uma confiança que muitas vezes se converte em presunção, quando falta a boa vontade para moderar e convergir para fins universais a imprudência que estes dons exercem sobre a alma. Assim estes desejos ao serem alcançados não podem ser considerados felicidade se não são desencadeados pela boa vontade, pois nenhum espetador razoável e imparcial sentiria satisfação em ver que tudo é feito segundo os desejos de uma pessoa que não apresenta qualquer vestígio de verdadeira boa vontade. A boa vontade constitui, portanto, a condição indispensável para se ser verdadeiramente feliz.

Kant considera que devem ser rejeitadas todas as teorias morais que se baseiam em qualquer motivo inferior ao absoluto da vontade. Kant parte do conceito de Bem, para afirmar que existe um bem ilimitado, incondicionalmente bom. Tudo o que não é bom em si mesmo, mas é-o por uma determinada finalidade ou num determinado contexto, ou seja, é condicionado pelas circunstâncias, não serve para caracterizar a moralidade.  “Neste mundo, e até fora dele, nada é possível pensar que não possa ser considerado como bom sem limitação a não ser uma só coisa: uma boa vontade. ”
Há uma dicotomia (divisão de um elemento em duas partes com significados contrários) entre a razão e o instinto. O instinto, a principio, garantiria ao sujeito adotar a melhor opção numa ação, no sentido de se auto preservar, o que poderia ser considerado como uma conduta moralmente boa. Contudo, a razão foi dada como faculdade que deve exercer influência sobre a vontade. A razão deverá produzir uma vontade boa em si mesma e não boa como meio para atingir outros fins. A razão deve prevalecer sobre o instinto, deve procurar o bem supremo, e por isso evitar inclinações e instintos.

A boa vontade não é determinada por inclinações e está subordinada apenas ao dever.
Uma ação feita por dever não tem o seu valor moral na sua utilidade, mas na lei que impulsiona a ação. O dever apenas deve ser impulsionado pela lei, devendo descartar-se qualquer sinal de vontade própria, guiada por instintos, inclinações ou por ideias de “possíveis recompensas” pela realização de uma ação por dever. Para sabermos se uma vontade é moralmente boa, devemos ter em conta se essa se converte numa lei universal, caso contrário é reprovável.
É reprovável não por não atender às vontades de alguém ou por fazer mal, mas por não poder ser generalizada. Agir moralmente, é portanto, agir por dever.

O dever é uma necessidade interna de realizar uma dada ação apenas por respeito à lei moral (lei prática). O dever liberta o homem das determinações a que está submetido, substitui a necessidade natural. O dever impõe ao homem a limitação dos seus desejos e obriga-o a respeitar as leis morais da razão.
Bertrand Russel (filosofo influente do século XX) resume assim o pensamento de Kant: “A moral só existe quando o homem atua segundo o dever. Não basta que o ato seja tal como o dever pode prescrever. O negociante honesto por interesse ou o homem bondoso por impulso não são virtuosos. A essência da moralidade deriva do conceito de lei; porque embora tudo na natureza atue segundo leis, só um ser racional pode atuar segundo a ideia de lei, isto é, por vontade. A ideia de um princípio objetivo, que impele a vontade, chama-se uma ordem da razão e a formula é o imperativo”.   in, História da Filosofia.

O homem que conserva sua vida conforme o dever, não pratica um ato moral, mas o homem que conserva sua vida por dever, pratica um ato moral. Teria um conteúdo moral, por exemplo, os atos que levariam um homem insistir em viver mesmo que, afetado por todo desgosto e desesperança na vida, não tivesse medo de morrer e ainda desejasse a morte, mas, contudo, permanecesse vivo por dever.

Uma ação só é de autentico valor moral ao ser praticada sem qualquer inclinação que traga satisfação instintiva, portanto, praticada apenas pelo dever que se impõe a ela, por ela própria. Aquele que age em conformidade com as suas inclinações (que impulsionam o ser humano a fazer o que lhe causa felicidade imediata e prazer), mesmo estando conforme o dever, não pratica atos morais.
Se o ato moral se configura nesses termos, não é possível exercê-lo dando voz às nossas inclinações, e apenas a partir de uma firme Boa Vontade estabelecida por princípios racionais de universalidade e necessidade é que nos tornaríamos homens éticos.

A lei máxima a que toda a vontade humana deve obedecer e que se baseia na Boa Vontade, é a lei segundo a qual as nossas ações, em conformidade com ela, têm caráter universal.
Segundo Kant a razão cobra-nos, naturalmente, um respeito para com uma Lei Universal. Uma Lei Universal é aquela que queremos que todos cumpram, pois o cumprimento dela por todos é beneficial. Se quisermos que todos a cumpram, surge um dever para que nós também a cumpramos. Lei Universal > Dever > Vontade > Ato Moral

Percebemos naturalmente que o valor de uma Lei Universal excede em muito o valor de qualquer inclinação. O respeito à Lei faz com que haja uma ação necessária que se constitui no dever, e é esse dever que constitui a condição da nossa vontade.

Dessa forma Kant faz a transição entre o conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico dessa moralidade praticada pela razão pura prática do homem vulgar. Ao promover uma análise da moral vulgar, que já julga a Boa Vontade como um bem em si mesmo, Kant demonstra que, por trás da prática corrente comum, a Boa Vontade age por um dever imposto por uma máxima que se pode tornar numa Lei Universal. No entanto alega que a razão comum tem que sair da sua prática inconsciente, e procurar fundamento na Filosofia Prática a qual determinaria os seus princípios de atuação.

Eva Morais

Bibliografia:

Fundamentação da Metafísica dos Costumes, introdução de Viriato Soromenho-Marques, Tradução de Paulo Quintela, porto editora

http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5764/Um-estudo-sobre-os-costumes-a-luz-de-Immanuel-Kant

http://filosofiageral.wikispaces.com/Fundamenta%C3%A7%C3%A3o+da+Metaf%C3%ADsica+dos+Costumes+-+Kant+%28Resenha%29

http://hottopos.com/notand14/marcos.pdf

http://afilosofia.no.sapo.pt/12KantIntrod.htm

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